A Igreja Matriz de minha cidade, precisava agendar horários extras para atender ao grande número de pedidos de toda a região, sobretudo para o mês de maio.

As costureiras trabalhavam alegre e febrilmente.
Uma delas era vizinha de minha mãe.
Eu adorava ficar sentadinha no chão, enquanto ela cortava, costurava, pendurava miçangas, montava grinaldas, criava "bouquets".
Quando alguma pedrinha caia no chão eu pegava para ela, que jamais aceitava de volta.
Supersticiosa, pensava que não daria sorte para a noiva, pegar pedrinha que tivesse fugido do vestido.
E me dava todos aqueles brilhos.
Estes fascinavam! Ainda me fascinam.

(Um dia ela ensinou a colocar as pedrinhas no tecido e me deu uma coleção de restinhos de miçangas que guardava.
Passei a aplicar nos vestidos de minhas bonecas.)

O momento da confecção dos bouquets e das grinaldas , obrigatoriamente brancos, era particularmente especial.
A costureira comparava o material que seria usado para que não destoasse do branco do vestido.
Com que carinho e precisão ela trabalhava!
Entrava em contato com a noiva para tirar dúvidas e saber detalhes da decoração.
Ia pregando o tule, fazendo voltinhas, criando pregas, franzindo e depois se esticava em cima de uma cadeira, segurando para ver o efeito.
Não dava por findo o trabalho até que considerasse que o véu já estava parecendo uma cascata, perfeita, movimentada e delicada.
E que a cascata do véu estivesse combinando com a do bouquet, isso era decreto!

Quando as moças iam fazer as provas eu as via, não como noivas, mas como fadas.
Havia um brilho mágico em seus olhos.

E eu pensava que isso era a felicidade!

Para mim, tão menina, as fadas eram mais reais do que as noivas.
E nem sabia o que significava o casamento.

Quando o mês de maio terminava e a costureira voltava às roupas comuns, já não achava graça nenhuma ficar com ela.
Enquanto outras crianças esperavam o mês de dezembro, eu esperava o mês de maio.

Hoje em dia, nem sei se continua essa preferência.
Só sei que não há mais miçangas.

Mudou o mês de maio?
As costureiras?
Mudaram as noivas?
Mudou o casamento?
Ou eu?

25/08/2008

 

 reginaLU
Publicado no Recanto das Letras em 01/09/2008
Código do texto: T1156151
 


     
 

 
 
 
 
 

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